O livro e a toalha
Isabel Pires
Ao exatos 58 anos e 11
meses da idade, ela tomou uma decisão radical: fez as malas e mudou-se de
cidade. Pegou o ônibus, vindo de Belo Horizonte, onde vivera por longos 14 anos, e desembarcou na Cidade Maravilhosa,
que elegeu para sua nova morada.
Uma vez no Rio, escolheu
a dedo onde iria se acomodar: um simpático apartamento de fundos, propício para
o isolamento e o silêncio, ensolarado e acolhedor, localizado num prédio em
frente ao Instituto de Educação e ao lado da Basílica de Santa Teresinha do
Menino Jesus, ponto da Tijuca que afirmava ser “nobre”.
Todo dia, às seis da
manhã em ponto, o sino da igreja batia, para desespero dos moradores do prédio
vizinho. Mas não para ela, que a esse horário já estava de pé, escrevendo e
saboreando o “café dos Arrais”, que só ela sabia fazer.
Havia ganhado de
presente, da filha mais velha, uma máquina de escrever, portátil e manual. E,
agora, se dedicava a passar os originais do seu livro nessa pequena máquina,
com zelo e perseverança. Anos depois, viria a ter um computador, e, nos seus
mais de 65 anos, se dedicaria a “passar” os originais produzidos na máquina de
escrever para o computador, oportunidade que aproveitava para fazer
retificações mil, atualizações, além de inserir enxertos nos capítulos, de forma
que o livro, que vinha sendo escrito há mais de 20 anos, nunca tinha um ponto
final, à maneira do tapete de Penélope.
Aliás, sempre me lembro
da minha mãe, na minha mais tenra infância, ainda em Juazeiro, coletando dados para o seu livro e
bordando uma toalha, que também nunca ficava pronta. Era uma bela toalha de
mesa, redonda e vermelha, com imensas flores que ela bordava com linhas de
variadas cores e em “ponto cheio”. Aliás, minha mãe era exímia bordadeira,
conhecia vários pontos de bordado. Do ponto cruz ao ponto cheio, passando pelo ponto
corrente e diversos outros. Tinha revistas e mais revistas de bordado, e sempre
estava disposta a aprender mais um tipo de ponto. Mas não costurava. Esse dom,
ela não tinha. Era desajeitada para costura, tanto que, quando ela resolveu
fazer panos de pratos lindamente bordados, precisou pagar uma costureira – a
doce Dona Cândida – para fazer os acabamentos.
Na verdade, o apartamento
não apenas localizava-se num ponto, segundo minha mãe, “nobre” da Tijuca, no Rio de Janeiro, mas era
principalmente estratégico. Estratégico, porque vizinho da igreja – não só
“igreja”, mas “basílica”: a Basílica de Santa Teresinha do Menino Jesus.
Portanto, para dona Hilma, um local a mais de coleta de dados, já que ela
escrevia/reescrevia – ou tecia? bordava? – um livro sobre religião. Bom, talvez
não fosse exatamente sobre religião, mas com certeza era sobre um “religioso”:
o Padre Cícero, essa figura essencialmente controversa – aos olhos da Igreja de
sua época, quase um herege, contudo venerado pelo povo, que o considerava quase
que uma divindade. Recentemente, a mesma Igreja que o condenou, o reconheceu
como um pilar de fé, propagador do cristianismo e dos seus preceitos de
caridade, humildade, tolerância. Enfim...
Cresci vendo minha mãe
tomar depoimentos, consultar acervos eclesiásticos, bibliotecas as mais
diversas e frequentar sebos à cata de livros que tratassem do “milagre do Juazeiro”. E são muitos
os autores que já se ocuparam do tema, como o historiador norte-americano Ralph
Della Cava, e os escritores brasileiros Otacílio Anselmo, Edmar Morel, Manoel
Diniz, Lourenço Manoel Filho, Nertã Macedo, Azarias Sobreira e Amália Xavier,
entre outros. Também buscava reportagens da época em que os fatos dos quais ela
se ocupava se sucederam, no longínquo “Juazeiro do Padre Cícero”, local remoto
no espaço, no tempo e na minha lembrança de menina.
Uma vez no Rio, minha mãe não deixou a oportunidade passar: virou uma verdadeira rata da Biblioteca Nacional, devorando todas as informações que pudesse e que a ajudassem a compor os seus preciosos capítulos. E complementava as suas pesquisas com idas ao cemitério São João Batista, em visita ao túmulo de Floro Bartolomeu, personagem ilustre e importante dos acontecimentos políticos que envolveram o Padre Cícero, ocasião que aproveitava ainda para visitar o túmulo de Cazuza, de quem era fã ardorosa, e a quem ela chamava de “poeta”.
Assim era minha mãe, Maria
Hilma Arraes, que, em meio à luta pela sobrevivência, alimentava um sonho: o
sonho de escrever um livro sobre um tema em muitos e muitos aspectos
fascinante, do qual sobressaía a figura ao mesmo tempo lendária e humana do
Padre Cícero, uma personalidade multifacetada, e por isso mesmo digna de
admiração e respeito.
A certa altura, já bem
avançada nos anos, decidiu pôr um termo ao seu escrito/reescrito. Perguntei-lhe
se não ia publicá-lo. Ela respondeu simplesmente que não, e guardou para sempre
os CDs em que gravava as diversas versões do livro. Bem antes, quando ainda
escrevia e reescrevia os capítulos, desmontando-os e remontando-os como um
quebra-cabeças, tinha andado à procura de editoras. Mas descobriu que a vida de
escritor no Brasil não era nada fácil: as grandes editoras só publicam
escritores consagrados, com público e retorno financeiro certos. Por seu turno,
as pequenas editoras cobram bem caro, justamente pelo risco de não obterem o
lucro visado. Por fim tinha a Lei Rouanet, que ela chegou a cogitar. E
desistiu, quando soube que, na capa do seu livro, iriam constar os
logotipos dos “patrocinadores”. Enfim, esse não era exatamente o arremate do
sonho que ela havia ardentemente sonhado. Bom, não sei que fim levou a toalha vermelha de flores inacabadas, perdida por entre as dobras do tempo. Mas o livro, este não de perdeu por completo. Após sua definitiva ida para o
descanso eterno, tomei a iniciativa de disponibilizar a sua obra na internet, no
endereço https://padreciceroadaeternitatem.blogspot.com/
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